Um caminhão carregado de grãos espera dias na fila de um porto, enquanto o contrato de venda no exterior tem data certa para cumprir. Para Matheus Gusatti, produtor rural, situações assim ajudam a entender por que vender para fora exige mais do que boa safra e preço favorável, já que cada elo da cadeia pode atrasar ou encarecer a operação.
O Brasil ocupa posição de destaque entre os maiores fornecedores mundiais de alimentos, e esse lugar não se sustenta por acaso. Ele depende de produtividade, de capacidade logística e de acesso a compradores. Quando um desses pontos falha, a posição do país no comércio internacional fica mais frágil, e o produtor sente o efeito no preço que recebe e no prazo em que consegue entregar.
Primeiro erro: tratar a exportação como extensão do mercado interno
Vender para o exterior segue regras próprias, e o erro mais comum é imaginar que basta ter produto sobrando. O comprador estrangeiro costuma exigir padrão de qualidade, rastreabilidade (a capacidade de acompanhar a origem e o histórico do lote até o destino) e documentação sanitária que o mercado interno nem sempre cobra. Em operações voltadas à exportação, o planejamento da produção começa pela exigência do destino, e só depois se define o que plantar e como armazenar.
No entendimento de Matheus Gusatti, esse raciocínio vale como alerta geral para quem pensa em ampliar mercados: conhecer o comprador final antes de colher evita retrabalho e perdas de contrato. Quem inverte a ordem acaba descobrindo as exigências quando a carga já está pronta, e aí qualquer ajuste sai caro.
Segundo erro: ignorar o câmbio na hora de fechar preço
O dólar influencia o ganho de quem exporta, mas também o custo de insumos como fertilizantes e defensivos, em boa parte cotados em moeda estrangeira. Pensar apenas no efeito positivo da cotação alta é uma leitura incompleta, porque o custo de produção sobe junto. Uma conta bem feita compara o que entra e o que sai em cada hipótese de câmbio, em vez de apostar numa única direção da moeda.
Há quem trate essa oscilação como sorte, como se o produtor pudesse apenas torcer. Na prática, existem instrumentos de proteção e formas de organizar a venda em etapas, que reduzem o risco de fechar tudo no pior momento. Cada propriedade avalia o que cabe no seu fluxo de caixa, e o ideal é que essa decisão seja tomada com antecedência, não na véspera da entrega.
Terceiro erro: subestimar a logística até o porto
A lavoura bem conduzida perde valor quando o escoamento é ruim. Distâncias longas, estradas em mau estado e armazenagem insuficiente aumentam o custo por tonelada e deixam o produto brasileiro menos competitivo diante de concorrentes com infraestrutura mais próxima do mar. É uma conta que o produtor raramente controla, mas que precisa entrar no planejamento.
Conforme explica Matheus Gusatti, o custo logístico deve ser tratado como parte do preço de venda, e não como surpresa posterior. Quem enxerga o frete como detalhe costuma descobrir, no fechamento do contrato, que a margem prevista não existe mais. Saber quanto custa levar a produção até o embarque ajuda a negociar melhor e a escolher qual mercado vale a pena atender.
Quarto erro: depender de um único comprador ou de um único destino
Concentrar as vendas em poucos países deixa o produtor exposto a mudanças de política comercial, a barreiras sanitárias e a crises locais. Ironicamente, a mesma carteira de compradores que parece segura em tempos tranquilos vira ponto fraco quando um grande importador resolve reduzir as compras. Diversificar não é luxo, é uma forma de manter a atividade rodando quando as condições mudam.
No nível do país, o raciocínio é parecido: o Brasil amplia sua força quando vende para regiões diferentes e oferece produtos variados, de grãos a carnes e fibras. Para o produtor, isso significa acompanhar para onde vai a demanda mundial e entender como o seu produto se encaixa nessa corrente, sem tomar decisões apenas pelo preço do dia.
Matheus Gusatti e a leitura de mercado como parte da gestão
A exportação aparece, nesse raciocínio, como tema de gestão tanto quanto de venda. Na avaliação de Matheus Gusatti, acompanhar indicadores de mercado, custos e prazos permite decidir com mais clareza se vale expandir a produção ou consolidar o que já existe. A informação organizada reduz a dependência de palpites e de rumores que circulam a cada nova safra.
Prudência continua sendo regra. Em temas como tarifas, regras sanitárias e acordos entre países, as condições mudam com frequência, e confirmar a situação atual antes de assumir compromissos é parte do trabalho. O produtor que se informa com antecedência negocia com mais segurança e evita assumir contratos que depois não consegue cumprir.
Quinto erro: esquecer que reputação também viaja no contêiner
O comprador internacional se lembra de quem entrega no prazo e na qualidade combinada, e também de quem não entrega. Uma remessa recusada por problema de padrão ou de documentação pode fechar portas por muito tempo, e o efeito se estende a outros produtores do mesmo país. A imagem do produto brasileiro se constrói carga a carga, e cada lote conta.
Como reforça Matheus Gusatti, a posição do país no mercado externo é resultado de milhares de decisões individuais no campo. Cuidar da qualidade, cumprir o que foi acordado e manter registros organizados são atitudes pequenas que, somadas, sustentam a confiança de quem compra. Quando todos fazem a sua parte, o país ganha espaço, e o produtor ganha previsibilidade.
Um mercado que premia quem planeja
O posicionamento do Brasil no comércio mundial de alimentos é sólido, mas não está garantido para sempre. Concorrentes investem em tecnologia, logística e acordos comerciais, e o comprador escolhe quem oferece a melhor combinação de preço, regularidade e confiança. Por isso, o produtor que olha para o destino final já na hora de planejar a safra mantém a competitividade mesmo quando o mercado aperta.

