Criar um aplicativo sem saber programar, apenas descrevendo o que se quer a uma ferramenta de IA, já é realidade em muitas empresas, e Murilo Moura Alencar, C-Level e Tech, People & Game Strategist, observa que a novidade traz ganhos reais e riscos que costumam aparecer tarde.
A prática ganhou até nome, vibe coding, termo popularizado em 2025 pelo pesquisador Andrej Karpathy para descrever a programação guiada por conversa com a IA, em que o autor mal olha o código gerado. Para entender o que acontece quando esse tipo de software entra na rotina de uma empresa, vale acompanhar um caso hipotético, mas cada vez mais comum. Veja a seguir.
Um aplicativo feito em uma tarde
Marina coordena a área de operações de uma distribuidora de médio porte. Cansada de controlar pedidos de reposição por planilhas trocadas por e-mail, ela descreve o problema a uma ferramenta de IA numa sexta-feira à tarde. Ao fim do dia, tem um pequeno sistema funcionando no navegador, com formulário, lista de pedidos e alertas de estoque baixo.
Na semana seguinte, a equipe inteira passa a usá-lo. O tempo gasto com conferência cai, os erros de digitação somem e Marina vira referência interna. Nenhum pedido formal foi feito à área de tecnologia, e ninguém sentiu falta disso.
Os problemas que não apareciam na tela
Três meses depois, o sistema tem vinte usuários e guarda dados de fornecedores e preços negociados. Um colega da área de tecnologia descobre, por acaso, que qualquer pessoa com o endereço do aplicativo consegue acessar a lista completa, sem senha. A IA havia criado exatamente o que foi pedido, e ninguém pediu controle de acesso.
Surgem outros pontos frágeis. Não há cópia de segurança dos dados, o sistema quebra quando dois pedidos são salvos ao mesmo tempo e só Marina sabe como ele funciona. Quando ela sai de férias, uma alteração simples fica parada por duas semanas.
O que a empresa poderia ter feito diferente?
Proibir a iniciativa teria sido o pior caminho, porque o problema de Marina era real e a solução trouxe ganhos. O erro esteve em deixar o protótipo virar sistema oficial sem nenhuma etapa intermediária.
Murilo Alencar sugere tratar esses projetos como experimentos bem-vindos, com um ponto de passagem claro. Enquanto o aplicativo é usado por poucas pessoas e com dados sem risco, ele pode seguir livre. Quando passa a guardar informações sensíveis ou a sustentar um processo importante, precisa de uma revisão técnica, com atenção a acesso, cópias de segurança e manutenção. Não se trata de burocracia, e sim de reconhecer que o software mudou de categoria.
O papel da área de tecnologia muda
Nesse cenário, a equipe técnica deixa de ser a única fábrica de sistemas e passa a funcionar também como consultoria interna. Oferecer modelos seguros para começar, ambientes aprovados para hospedar esses aplicativos e revisões rápidas quando um protótipo cresce são formas de apoiar quem cria sem perder o controle.
Na leitura de Murilo Moura Alencar, isso exige uma mudança de postura dos próprios profissionais de tecnologia. Em vez de disputar território, a equipe ganha influência ao ajudar outras áreas a construir melhor, e evita descobrir problemas graves apenas quando eles já afetaram clientes ou dados da empresa.
Criar ficou fácil, manter continua difícil
A inteligência artificial reduziu drasticamente o custo de transformar uma ideia em software funcionando. Murilo Moura Alencar frisa que o custo de manter esse software seguro, confiável e compreensível ao longo dos anos, porém, continua praticamente o mesmo.
Em última análise, entende-se, portanto, que empresas que entenderem essa diferença poderão aproveitar a criatividade de pessoas como Marina sem transformar cada boa ideia num risco escondido. O ponto de atenção deixa de ser quem escreveu o código e passa a ser se alguém está cuidando dele depois que ele começa a importar.

